The Teachings of Ajahn Chah
A collection of Ajahn Chah's translated Dhamma talks
É muito
importante que pratiquemos o Dhamma. Se não praticarmos, então todo o nosso
conhecimento será somente um conhecimento superficial, a sua cobertura externa
somente. É como se tivéssemos um certo tipo de fruta mas que ainda não a
tivéssemos comido. Apesar de termos essa fruta nas nossas mãos, ela não nos
traz nenhum benefício. Somente comendo a fruta é que podemos realmente conhecer
o seu sabor.
O Buda não
louvava aqueles que simplesmente acreditavam nos outros, ele louvava a pessoa que tinha o conhecimento
interiorizado. O mesmo que com a fruta, se nós já a tivermos provado, não
precisaremos perguntar a ninguém mais se ela é doce ou azeda. Os nossos
problemas estão solucionados. Porque estão resolvidos? Porque vemos de acordo
com a verdade. Aquele que compreendeu o Dhamma é como aquele que percebeu a
doçura ou acidez da fruta. Todas as dúvidas terminam nesse momento.
Quando falamos
sobre o Dhamma, embora possamos falar muito, usualmente, isso pode ser resumido
em quatro coisas. Elas são simplesmente entender o sofrimento, entender a causa
do sofrimento, entender o fim do sofrimento e entender o caminho da prática que
conduz ao fim do sofrimento. Isso é tudo. Tudo que experimentamos até agora no
caminho da prática se resume nessas quatro coisas. Quando entendermos essas
coisas, os nossos problemas terminam.
De onde surgem
essas quatro coisas? Elas surgem justamente deste corpo e desta mente, de
nenhum outro lugar. Então porque o Dhamma do Buda é tão amplo e extenso? Ele é
assim de forma a explicar essas coisas de uma maneira mais detalhada, para
ajudar-nos a vê-las.
Quando Siddhattha
Gotama nasceu neste mundo, antes que ele enxergasse o Dhamma, ele era uma
pessoa comum como qualquer um de nós. Quando ele entendeu o que era para ser
entendido, isto é, a verdade do sofrimento, a causa, o fim e o caminho que
conduz ao fim do sofrimento, ele compreendeu o Dhamma e se tornou um Buda
perfeitamente Iluminado.
Quando nós
compreendemos o Dhamma, em qualquer
lugar que sentemos, entenderemos o Dhamma, em qualquer lugar que estejamos,
ouviremos os ensinamentos do Buda. Quando nós compreendemos o Dhamma, o Buda
está dentro da nossa mente, o Dhamma está dentro da nossa mente e a prática que
conduz à sabedoria está dentro da nossa mente. Ter o Buda, o Dhamma e a Sangha
dentro da nossa mente significa que, boas ou más, saberemos claramente, por nós
mesmos, a verdadeira natureza das
nossas ações. Foi assim que o Buda descartou as opiniões mundanas, ele
descartou os elogios e as críticas. Quando as pessoas o elogiavam ou criticavam
ele simplesmente aceitava ambos pelo que eram. Essas duas coisas são
simplesmente condições mundanas, assim ele não se abalava com elas. Porque não?
Porque ele conhecia o sofrimento. Ele sabia que se ele acreditasse nesse elogio
ou crítica, estes lhe causariam sofrimento.
Quando o
sofrimento surge ele nos agita, nos sentimos perturbados. Qual é a causa desse
sofrimento? É porque não conhecemos a Verdade, essa é a causa. Quando a causa
está presente, então o sofrimento surge. Uma vez que surge nós não sabemos como
pará-lo. Quanto mais tentamos pará-lo, mais intenso ele fica. Nós dizemos,
"Não me critique", ou "Não ponha a culpa em mim". Ao tentar
pará-lo dessa forma, o sofrimento fica realmente mais intenso e ele não irá
parar.
Portanto, o Buda
ensinou que o caminho que conduz ao fim do sofrimento é fazer surgir o
Dhamma como uma realidade dentro das
nossas mentes. Nos tornamos alguém que testemunha o Dhamma por si mesmo. Se
alguém diz que somos bons, nós não nos perdemos nisso; eles dizem que não somos
bons, nós não nos perdemos nisso; eles dizem que não somos bons e nós não nos
esquecemos de nós mesmos. Dessa forma podemos nos libertar. "Bem" e
"mal" são apenas dhammas mundanos, eles são, apenas, estados da
mente. Se os seguirmos, a nossa mente se transforma no mundo, nós ficamos
tateando no escuro e não sabemos onde está a saída. Se é assim, então ainda não
temos controle sobre nós mesmos. Tentamos derrotar os outros, mas agindo assim
apenas derrotamos a nós mesmos; porém se temos controle sobre nós mesmos então
temos controle sobre tudo - sobre todas as formações mentais, visões, sons,
aromas, sabores e sensações corporais. Agora estou falando de coisas externas,
elas são assim, mas o exterior também está refletido internamente. Algumas
pessoas apenas conhecem o exterior, elas não conhecem o interior. Como quando
dizemos para "ver o corpo no corpo". Ver o corpo exterior não é
suficiente, precisamos conhecer o corpo dentro do corpo. Então, tendo
investigado a mente, devemos conhecer a mente dentro da mente.
Porque devemos
investigar o corpo? O que é esse "corpo no corpo"? Quando falamos
conhecer a mente, o que é essa "mente"? Se não conhecermos a mente
então não conheceremos as coisas dentro da mente. É ser alguém que não conhece
o sofrimento, não conhece a causa, não conhece o fim e não conhece o caminho.
As coisas que deveriam ajudar a extinguir o
sofrimento não funcionam porque nós somos distraídos pelas coisas que o
agravam. É como se tivéssemos uma coceira na cabeça e coçássemos a perna! Se é a nossa cabeça que está coçando então
obviamente não vamos obter muito alívio. Da mesma forma, quando o sofrimento
surge, não sabemos como lidar com ele, não conhecemos a prática que conduz ao
fim do sofrimento.
Por exemplo,
vejam o corpo, este corpo que cada um de nós trouxe a esta reunião. Se somente
virmos a forma do corpo não há como escapar do sofrimento. Porque não? Porque
ainda não enxergamos o interior do corpo, somente vemos o exterior. Somente o
vemos como algo belo, que possui substância. O Buda disse que somente isso não
é o suficiente. Nós vemos o exterior com os nossos olhos; uma criança pode
vê-lo, animais podem vê-lo, não é difícil. O exterior do corpo pode ser visto
com facilidade, mas ao vê-lo nos prendemos a ele, não conhecemos a verdade a
seu respeito. Ao vê-lo nós o agarramos e ele nos morde!
Portanto devemos
investigar o corpo dentro do corpo. Não importa o que exista no corpo, vá em
frente e olhe. Se virmos somente o exterior, não estará nítido. Vemos cabelo,
unhas e assim por diante e elas são apenas coisas belas que nos atraem, por
isso o Buda nos ensinou a olhar para dentro do corpo, para ver o corpo dentro
do corpo. O que é o corpo? Olhem para dentro atentamente! Veremos muitas coisas
ali que nos surpreenderão, porque apesar de estarem dentro de nós, nós nunca as
vimos. Para qualquer lugar que caminhemos, nós vamos carregá-las conosco,
sentados em um carro, nós vamos levá-las conosco, mas mesmo assim não as
conhecemos!
É como quando
visitamos alguns parentes e eles nos dão um presente. Nós o pegamos e colocamos
na nossa mala e depois saímos sem abri-lo para ver o que é. Quando finalmente o
abrimos - está cheio de cobras venenosas! O nosso corpo é igual. Se virmos somente a sua casca diremos que ele é
agradável e bonito. Nós nos esquecemos.
Esquecemos que é impermanente, insatisfatório e não-eu. Se olharmos
dentro deste corpo veremos que ele é realmente repulsivo. Se virmos de acordo
com a realidade, sem tentar disfarçar as coisas, veremos que ele é realmente
patético e cansativo. O desapego irá surgir. Essa sensação de
"desinteresse" não quer dizer que sintamos aversão pelo mundo ou algo
parecido; é simplesmente a nossa mente sendo limpa, a nossa mente se soltando
dele. Vemos as coisas como elas são por natureza. Não importa como queiramos
que sejam, elas serão do seu próprio jeito. Quer riamos ou choremos, elas são
simplesmente como são. As coisas que são instáveis, são instáveis; as coisas
que são feias, são feias.
Portanto o Buda
disse que quando experimentamos visões, sons, sabores, aromas, sensações
corporais ou estados mentais, deveríamos libertá-los.Quando o ouvido ouve um
som, deixe-o ir. Quando o nariz cheira um aroma, deixe-o ir…deixe-o no nariz!
Quando as sensações corporais surgem, solte-se do gostar ou não gostar que vem
em seguida, deixe que retornem para onde vieram. O mesmo para os estados
mentais. Todas essas coisas, deixe que elas sigam o seu caminho. Isso é o
conhecimento. Quer seja felicidade ou infelicidade, é a mesma coisa. A isto se
chama meditação.
Meditação
significa pacificar a mente de forma que a sabedoria possa surgir. Isso exige
que pratiquemos com o corpo e a mente de forma a ver e conhecer as impressões
sensuais da forma, do som, do sabor, do toque e das formações mentais.
Colocando de modo resumido, é somente uma questão de felicidade e infelicidade.
A felicidade é uma sensação agradável na mente, a infelicidade é justamente a
sensação desagradável. O Buda ensinou a separar essa felicidade e infelicidade
da mente. A mente é aquela que sabe. A sensação [10] é a característica da felicidade ou infelicidade, gostar ou não
gostar. Quando a mente se entrega a essas coisas dizemos que ela se apega ou
assume que essa felicidade e infelicidade merecem ser guardadas. Esse apego é
uma ação mental, essa felicidade ou infelicidade é a sensação.
Quando afirmamos
que o Buda nos disse para separar a mente da sensação, ele não quis dizer
literalmente colocá-los em lugares diferentes. Ele quis dizer que a mente deve
conhecer a felicidade e a infelicidade. Quando estamos sentados em samadhi, por exemplo, e a paz preenche a
mente, então a felicidade pode vir mas ela não nos atinge, a infelicidade pode
vir mas não nos atinge. Isto é o que quer dizer separar a sensação da mente.
Podemos compará-lo com a água e óleo numa garrafa. Eles não se combinam. Mesmo
se você tentar misturá-los, o óleo permanece como óleo e a água permanece como
água. Porque ocorre isso? Porque eles possuem densidades diferentes.
O estado natural
da mente não é nem de felicidade nem de infelicidade. Quando uma sensação entra
na mente então a felicidade ou infelicidade surge. Se tivermos atenção plena
então entenderemos a sensação agradável como sensação agradável. A mente que
sabe não irá se agarrar a ela. A felicidade se encontra ali mas está "do
lado de fora" da mente, não está enterrada dentro da mente. A mente
simplesmente sabe disso com clareza.
Se separarmos a
infelicidade da mente, isso significa que não haverá sofrimento, que nós não o
experimentaremos? Sim, nós o experimentamos, porém sabemos que a mente é mente
e a sensação é sensação. Nós não nos agarramos a essa sensação ou a carregamos
conosco. O Buda separou essas coisas através do conhecimento. Ele sofria? Ele conhecia o estado de sofrimento mas não
se apegava a ele, dessa forma dizemos que ele extirpou o sofrimento. E também
havia a felicidade, mas ele conhecia essa felicidade, quando ela não é
conhecida, é como um veneno. Ele não a tomou como parte de si mesmo. A felicidade ali estava através do
conhecimento, mas ela não existia na sua mente. Dessa forma dizemos que ele
separou a felicidade e a infelicidade da sua mente.
Quando dizemos
que o Buda e os Iluminados aniquilaram as contaminações, [11]
não é que eles realmente as aniquilaram. Se eles as tivessem
aniquilado então provavelmente nós não teríamos nenhuma! Eles não aniquilaram
as contaminações, quando eles as conheceram pelo que elas são, eles se soltaram
delas. Alguém que seja estúpido irá se agarrar a elas, mas os Iluminados
conheciam as contaminações como veneno nas suas mentes, assim eles as varreram
para fora. Eles varreram para fora as coisas que lhes causavam sofrimento, eles
não as aniquilaram. Alguém que não saiba disso verá algumas coisas, assim como
a felicidade, como boas e então irá agarrá-las, mas o Buda as conhecia e simplesmente as varria para
fora.
Mas quando a
sensação surge nos entregamos a ela, isto é, a mente carrega consigo aquela
felicidade e infelicidade. Na verdade elas são duas coisas distintas. As
atividades da mente, sensações agradáveis, sensações desagradáveis e assim por
diante, são impressões mentais, elas são o mundo. Se a mente sabe disso ela pode lidar igualmente com a felicidade
ou a infelicidade. Porque? Porque ela conhece a verdade acerca dessas coisas.
Alguém que não a conhece, as vê como sendo iguais. Se você se apega à
felicidade será ali onde irá surgir a infelicidade mais tarde, porque a
felicidade é instável, ela muda o tempo todo. Quando a felicidade desaparece,
surge a infelicidade.
O Buda sabia
disso porque ambas a felicidade e a infelicidade são insatisfatórias, elas
possuem o mesmo valor. Quando surgia a felicidade ele a soltava . Ele tinha a
prática correta, vendo que ambas as coisas possuem valores e desvantagens
iguais. Elas se submetem à lei do Dhamma, isto é, elas são instáveis e
insatisfatórias. Uma vez que nascem, elas morrem. Quando ele viu isso, o entendimento correto despertou e a prática
correta se tornou clara. Não importa que tipo de sentimento ou pensamento
surgia na sua mente, ele sabia que era simplesmente o jogo contínuo da felicidade
e infelicidade. Ele não se apegava a elas.
Pouco após a sua
iluminação o Buda deu um sermão acerca de entregar-se ao prazer e de
entregar-se à dor. "Bhikkhus! Entregar-se ao prazer é o caminho relaxado,
entregar-se à dor é o caminho tenso". Essas foram as duas coisas que
atrapalharam a sua prática até o dia em que ele se iluminou, porque no início
ele não se soltava delas. Assim que ele as entendeu, ele passou a se soltar
delas e dessa forma foi capaz de proferir o seu primeiro sermão.
Portanto, dizemos
que um meditador não deve seguir o caminho da felicidade ou infelicidade, de
preferência ele deve entendê-las. Entendendo a verdade do sofrimento, ele
saberá a causa do sofrimento, o fim do sofrimento e o caminho que conduz ao fim
do sofrimento. E o caminho que conduz ao fim do sofrimento é a própria
meditação. Para colocar de maneira simples, precisamos estar plenamente
atentos.
Atenção plena
é saber, ou presença da atenção. Exatamente agora o que estamos pensando, o que
estamos fazendo? O que temos conosco exatamente neste instante? Observamos
dessa forma, estamos conscientes de como estamos vivendo. Quando praticamos
dessa forma, a sabedoria pode surgir. Nós consideramos e investigamos todo o
tempo, em todas as posturas. Quando uma impressão mental surge e queremos
conhecê-la tal como ela é, nós não a tomamos como sendo algo com substância. É
apenas felicidade. Quando a infelicidade surge sabemos que se trata da entrega
à dor, não é o caminho de um meditador.
Isto é o que
chamamos de separar a mente da sensação. Se formos espertos não nos apegamos,
deixamos as coisas como são. Nos tornamos "aquele que sabe'. A mente e a
sensação são como óleo e água, elas estão na mesma garrafa mas não se misturam.
Mesmo se estivermos enfermos ou com dor, ainda assim entenderemos a sensação
como sensação, a mente como mente. Conhecemos os estados desconfortáveis ou
confortáveis mas não nos identificamos com eles. Somente permanecemos com a
paz, a paz que está além do conforto e da dor.
Você deve
entender dessa forma, porque se não há um eu permanente então não existe
refúgio. Você deve viver dessa forma, isto é, sem felicidade e sem
infelicidade. Você permanece simplesmente com esse entendimento, você não
carrega essas coisas.
Enquanto não
alcançarmos a iluminação tudo isso pode soar estranho mas não tem importância,
nós simplesmente colocamos o nosso objetivo nessa direção. A mente é a mente.
Ela encontra a felicidade e a infelicidade e as vemos apenas como tais, nada
além disso. Elas são divididas, não misturadas. Se estiverem misturadas então
não as entenderemos. É como viver em
uma casa, a casa e o seu morador estão relacionados, porém separados. Se a
nossa casa está em perigo ficamos aflitos porque precisamos protegê-la, mas se a
casa pegar fogo precisaremos abandoná-la. Se uma sensação desconfortável surge
nós a abandonamos, tal como com a casa. Se ela estiver em chamas e nós
soubermos disso, sairemos correndo. São duas coisas distintas; a casa é uma
coisa, o morador é outra.
Dizemos que
separamos a mente e a sensação dessa forma, mas na verdade por natureza elas já
estão separadas. A nossa realização é simplesmente conhecer essa separação
natural de acordo com a realidade. Quando dizemos que elas não estão separadas
é porque por ignorância da verdade nos apegamos a elas.
Por isso o Buda
nos disse para meditar. Essa prática de meditação é muito importante. Somente
conhecer com o intelecto não é suficiente. O conhecimento que é obtido através
da prática com uma mente tranqüila e o conhecimento que é obtido através do
estudo são dois tipos realmente muito distintos. O conhecimento que é obtido
através do estudo não é o verdadeiro conhecimento da nossa mente. A mente tenta
agarrar e manter esse conhecimento. Porque tentamos mantê-lo? Solte-o ! E então
quando o soltamos, lamentamos!
Se realmente
tivermos o conhecimento, então poderemos nos soltar de tudo, que as coisas
sejam como são. Sabemos como as coisas são e não nos esquecemos. Se acontecer
de ficarmos enfermos não nos perderemos nisso. Algumas pessoas pensam,
"Este ano estive enfermo todo o tempo, não pude nunca meditar". Essas
são as palavras de uma pessoa realmente tola. Alguém que esteja enfermo e
morrendo deve realmente ser diligente na sua prática. Uma pessoa pode dizer que
não confia no seu corpo e por isso sente que não consegue meditar. Se pensarmos
assim então as coisas ficarão difíceis. O Buda não ensinou dessa forma. Ele
disse que aqui mesmo é o lugar para meditar. Quando estamos enfermos ou
morrendo é quando podemos realmente ver e conhecer a realidade.
Outras pessoas
dizem que elas não têm a oportunidade de meditar porque estão muito ocupadas.
Algumas vezes professores me procuram. Eles dizem que possuem muitas
responsabilidades e por isso não têm tempo para meditar. Eu lhes pergunto,
"Quando vocês estão ensinando, vocês têm tempo para respirar?" Eles
respondem, "Sim". "Portanto como que vocês têm tempo para
respirar se o trabalho é tão agitado e confuso? Nesse caso, vocês estão
distantes do Dhamma."
Na realidade,
esta prática é justamente sobre a mente
e as sensações. Não se trata de algo que você tenha de correr atrás ou se
esforçar. A respiração continua enquanto trabalhamos. A natureza toma conta dos
processos naturais - tudo que precisamos fazer é estar atentos. Continuar
tentando apenas, ver internamente com clareza. A meditação é assim.
Se tivermos essa
atenção presente, então todo trabalho que façamos será a ferramenta que nos
permitirá continuamente saber o que é certo e o que é errado. Existe muito tempo
para meditar, nós apenas não entendemos a prática de forma completa, isso é
tudo. Enquanto estamos dormindo, respiramos;
comendo, respiramos, não é mesmo? Porque não temos tempo para meditar?
Onde quer que seja que estejamos, respiramos. Se pensarmos dessa forma então a
nossa vida tem tanto valor quanto a nossa respiração, onde quer que estejamos,
temos tempo.
Todos os tipos de
pensamentos são condições mentais, não condições do corpo, deste modo,
precisamos simplesmente ter a atenção presente, então saberemos o que é certo e
o que é errado todo o tempo. Em pé, caminhando, sentado e deitado, existe tempo
de sobra. Nós, apenas, não sabemos como usá-lo da forma apropriada. Por favor
levem isso em conta.
Não podemos fugir
das sensações, precisamos conhecê-las. Sensação é apenas sensação, felicidade é apenas felicidade, infelicidade é apenas infelicidade. Elas são simplesmente isso. Portanto,
porque deveríamos nos apegar a elas? Se a mente for esperta, só de ouvir isso
seria o suficiente para nos permitir separar a sensação da mente.
Se investigarmos
dessa forma continuamente, a mente irá encontrar a libertação, mas não escapará através da ignorância. A mente
se solta de tudo, quando ela sabe. Ela não solta devido à estupidez, não porque
ela não queira que as coisas sejam como são. Ela solta porque sabe de acordo
com a verdade. Isso é ver a natureza, a realidade que está à nossa volta.
Quando sabemos
isso somos alguém hábil com a mente, temos habilidade com as impressões
mentais. Quando temos habilidade com as impressões mentais somos hábeis com o
mundo. Isto é ser um "Conhecedor do Mundo". O Buda era alguém que
claramente conhecia o mundo com todas as suas dificuldades. Ele sabia que o que
é preocupante e que o que não é preocupante estavam exatamente ali. O mundo é
tão confuso, como é que o Buda foi capaz de entendê-lo? Com relação a isso
devemos entender que o Dhamma ensinado pelo Buda não está além da nossa
capacidade. Em todas as posturas devemos ter a atenção presente e
autoconsciência - e quando for o momento para sentar em meditação, fazemos
apenas isso.
Nós sentamos em
meditação para estabelecer a paz e cultivar a energia mental. Nós não o fazemos
com o propósito de explorar algo especial. A meditação de insight é estar sentado em samadhi . Em alguns lugares se diz, "Agora vamos sentar em samadhi, depois disso faremos meditação
de insight". Não faça essa separação! A tranqüilidade é a base que faz
surgir a sabedoria, a sabedoria é o fruto da tranqüilidade. Dizer que agora
vamos fazer a meditação da tranqüilidade e mais tarde insight - você não pode
fazer isso! Você somente consegue dividi-las na linguagem. Tal como uma faca, a
lâmina está de um lado, a parte de trás da lâmina do outro. Você não consegue
dividi-las. Se você pegar um lado irá na verdade ficar com os dois lados. A
tranqüilidade faz a sabedoria surgir dessa forma.
A Virtude é o pai
e a mãe do Dhamma. No princípio precisamos ter virtude. A virtude é paz. Isso significa
que não existem ações incorretas com o corpo ou a linguagem. Quando não agimos
da forma incorreta não ficamos agitados; quando não ficamos agitados, então a
paz e o autocontrole surgem na mente.
Portanto dizemos que a virtude, concentração e sabedoria são o caminho que
todos os Nobres trilharam em direção à iluminação. Eles são um só. A virtude é
concentração, a concentração é virtude. A concentração é sabedoria, a sabedoria
é concentração. É tal como uma manga. Quando ela é uma flor a chamamos de flor.
Quando se torna uma fruta a chamamos de manga. Quando amadurece nós a chamamos
de manga madura. Tudo isso é uma manga que muda continuamente. A manga grande
se desenvolve da manga pequena, a manga pequena se torna uma grande. Você pode
chamá-las de nomes diferentes ou dar um nome só. Virtude, concentração e
sabedoria estão relacionadas dessa forma. Ao final todas são o caminho que
conduz à iluminação.
A manga, do
momento em que surge como uma flor, simplesmente se desenvolve até o
amadurecimento. Isso é o suficiente, nós devemos ver dessa forma. Seja o que
for que os outros a chamem, não importa. Uma vez nascida ela cresce até
envelhecer, e depois o que? Devemos meditar sobre isso.
Algumas pessoas
não querem envelhecer. Quando elas envelhecem elas ficam se lamentando. Essas
pessoas não deveriam comer mangas maduras! Porque queremos que as mangas
amadureçam? Se não amadurecem no tempo certo, nós as amadurecemos
artificialmente, não é verdade? Porém quando envelhecemos ficamos cheios de
lamentações. Algumas pessoas choram, elas temem envelhecer ou morrer. Se é
assim, então elas não deveriam comer mangas maduras, melhor comer somente as
flores! Se podemos enxergar isso, então poderemos ver o Dhamma. Tudo fica
claro, estamos em paz. Decida-se a praticar dessa forma.
Assim, hoje, o
Chefe Conselheiro e o seu grupo vieram
juntos para ouvir o Dhamma. Vocês deveriam tomar o que eu disse e analisar tudo
cuidadosamente. Se algo não estiver correto, por favor me desculpem. Mas para saberem se está certo ou errado, depende de
praticarem e enxergarem por si mesmos. Aquilo que estiver errado, joguem fora.
Aquilo que estiver certo, guardem e usem. Mas na verdade, nós praticamos para
soltar ambos, o que é correto e o que é incorreto. Ao final jogamos tudo fora.
Se for correto, jogue fora; se for incorreto, jogue fora! Usualmente, se for
correto nos apegamos à correção, se for incorreto, nos agarramos à idéia de que
é incorreto e então as discussões surgem. Mas o Dhamma é o lugar onde não
existe nada - absolutamente nada.
10. Sensação é uma tradução da palavra em Pali vedana, e deve ser entendida com o sentido dado por Ajaan Chah: como os estados mentais
de gostar, não gostar, alegria, tristeza, etc. [Retorna]
11. Contaminações, ou kilesa, são os
hábitos nascidos da ignorância que infestam as mentes de todos os seres não
iluminados. [Retorna]