The Teachings of Ajahn Chah
A collection of Ajahn Chah's translated Dhamma talks
O ensinamento
Budista compreende o abandono do mal e a prática do bem. Então, quando o mal é
abandonado e o bem estabelecido, precisamos nos soltar de ambos, do bem e do
mal. Já ouvimos o suficiente acerca de condições benéficas e prejudiciais para
sermos capazes de entender algo a seu respeito, portanto eu gostaria de falar
sobre o Caminho do Meio, isto é, o caminho para escapar dessas duas coisas.
Todas palestras
do Dhamma e ensinamentos do Buda possuem um objetivo - mostrar como sair do
sofrimento para aqueles que ainda não conseguiram escapar. Os ensinamentos
possuem como objetivo nos transmitir o entendimento correto. Se não entendermos
corretamente, então não alcançaremos a paz.
Quando os vários
Budas se iluminaram e transmitiram os seus primeiros ensinamentos, todos eles
falaram acerca desses dois extremos - entregar-se ao prazer e entregar-se à
dor. [7] Esses dois caminhos são os
caminhos das paixões cegas, eles são os caminhos entre os quais oscilam aqueles
que se entregam aos prazeres sensuais, sem nunca alcançar a paz. Eles são os
caminhos que ficam dando volta no samsara.
O Iluminado
observou que todos os seres estão presos a esses dois extremos, nunca enxergando
o Caminho do Meio do Dhamma, portanto ele os expôs de forma a mostrar a punição
envolvida em ambos. Porque nós ainda estamos presos, porque ainda desejamos,
vivemos repetidas vezes sob a sua ditadura. O Buda declarou que esses dois
caminhos são os caminhos da embriaguez, eles não são os caminhos de um
meditador, nem os caminhos para a paz. Esses caminhos são a entrega ao prazer e
a entrega à dor ou, para colocar de maneira simplificada, o caminho da
negligência e o caminho da tensão. Se você investigar interiormente, momento a
momento, verá que o caminho da tensão é a raiva, o caminho do sofrimento.
Seguindo por esse caminho haverá somente dificuldade e sofrimento. Entregar-se
ao prazer - se você escapou dela, isso significa que você escapou da felicidade.
Esses caminhos, tanto a felicidade como a infelicidade não são estados de paz.
O Buda ensinou a soltar ambos. Essa á a prática correta. Esse é o Caminho do
Meio. Essas palavras, "o Caminho do Meio", não se referem ao nosso
corpo e linguagem, elas se referem à mente. Quando uma impressão mental que não
gostamos surge, ela afeta a mente e surge a confusão. Quando a mente está
confusa, quando ela está agitada, esse não é o caminho correto. Quando surge
uma impressão mental da qual gostamos, a mente se move para entregar-se ao
prazer - esse não é o caminho tampouco.
Nós não queremos
sofrer, queremos a felicidade. Mas na verdade a felicidade é apenas uma forma
refinada de sofrimento. O sofrimento em si é a forma grosseira. Você pode compará-los
a uma cobra. A cabeça da cobra é a infelicidade, a cauda da cobra é a
felicidade. A cabeça da cobra é realmente perigosa, ela possui as presas
venenosas. Se você tocá-la a cobra morderá imediatamente. Mas não importa a
cabeça, mesmo se você segurar a cauda, ela irá se voltar e mordê-lo do mesmo
jeito, porque ambos a cabeça e a cauda pertencem à mesma cobra.
Da mesma forma,
ambas a felicidade e a infelicidade, ou prazer e dor, surgem do mesmo
progenitor - desejo. Portanto, quando você está feliz a mente não está em paz.
Não está mesmo! Por exemplo, quando obtemos as coisas que queremos, tal como
riquezas, prestígio, elogios ou felicidade, como resultado ficamos satisfeitos.
Mas a mente ainda abriga algum desconforto porque tememos perder algo. Esse
mesmo temor não é um estado pacífico. Mais tarde poderemos até perder algo e
então realmente sofreremos. Dessa forma, se você não tiver consciência, mesmo
que esteja feliz, o sofrimento é iminente. É exatamente o mesmo que agarrar a
cauda da cobra - se você não soltá-la ela irá mordê-lo. Portanto quer seja a
cauda ou a cabeça da cobra, isto é, condições benéficas ou prejudiciais, elas
são apenas qualidades da Roda da Existência, mudando interminavelmente.
O Buda
estabeleceu a virtude, concentração e sabedoria como o caminho para a paz, o
caminho para a iluminação. Mas na verdade essas coisas não são a essência do
Budismo. Elas são somente o caminho. O Buda as chamava de "Magga",
que significa "caminho". A essência do Budismo é a paz e essa paz
surge conhecendo verdadeiramente a natureza de todas as coisas. Se
investigarmos de perto, veremos que a paz não é a felicidade nem a
infelicidade. Nenhuma delas é a verdade.
A mente humana, a
mente que o Buda nos estimulou a conhecer e investigar, é algo que somente
podemos conhecer através da sua atividade. A verdadeira "mente
original" não pode ser medida, não pode ser conhecida. No seu estado
natural ela é inabalável, imóvel. Quando surge a felicidade, o que ocorre é que
essa mente se perde em uma impressão mental, existe movimento. Quando a mente
se move dessa forma, o apego e a ligação a essas coisas surgem.
O Buda
estabeleceu o caminho da prática completo, mas nós ainda não o praticamos, ou
se o fazemos, nós o praticamos somente com a linguagem. As nossas mentes e a
nossa linguagem ainda não estão em harmonia, nós nos entregamos apenas a uma
conversa sem propósito. Mas a base do Budismo não é algo acerca do qual se
possa conversar ou fazer conjecturas. A base real do Budismo é o completo
conhecimento acerca da verdade da realidade. Se alguém conhece essa verdade
então não existe a necessidade de nenhum ensinamento. Se alguém não a conhece,
mesmo que ele escute os ensinamentos, ele na verdade não os irá ouvir. É por
isso que o Buda disse, "O Abençoado apenas indica o caminho". Ele não
pode realizar a prática por você, porque a verdade é algo que não pode ser
colocada em palavras ou revelada.
Todos os
ensinamentos são apenas metáforas e comparações, meios para ajudar a mente a
ver a verdade. Se não pudermos ver a verdade, sofreremos. Por exemplo,
geralmente dizemos "sankharas" [8] quando
nos referimos ao corpo. Qualquer pessoa pode dizer isso mas na verdade temos
problemas simplesmente porque não conhecemos a verdade desses sankharas, e por isso nos apegamos a
eles. Porque não conhecemos a verdade do corpo, sofremos.
Vou dar um
exemplo. Suponha que uma manhã você está caminhando para o trabalho e um homem
do outro lado da rua lhe grita ofensas e insultos. Assim que você ouve essas
ofensas a sua mente muda do seu estado normal. Você não se sente tão bem, você
sente raiva e mágoa. Aquele homem se encontra ali ofendendo-o dia e noite.
Quando você ouve a ofensa, você fica com raiva e mesmo quando você volta para
casa, ainda sente raiva porque você se sente vingativo, você quer revidar.
Alguns dias mais
tarde um outro homem vem na sua casa e lhe diz. "Ei! Aquele homem que o
ofendeu outro dia, ele está louco, ele está insano! Já faz vários anos! Ele
ofende a todos dessa forma. Ninguém presta atenção ao que ele diz". Assim
que você ouve isso, você se sente repentinamente aliviado. Aquela raiva e mágoa
que estavam armazenadas dentro de você todos esses dias se dissolvem
completamente. Porque? Porque agora você conhece a verdade. Antes, você não
sabia, você pensava que aquele homem era normal, por isso você estava com raiva
dele. Pensando dessa forma fez com que você sofresse. Assim que você descobriu
a verdade, tudo mudou: "Ah, ele está louco! Isso explica tudo!"
Entendendo isso, você se sente bem, porque você sabe por você mesmo.
Entendendo, então, você pode soltar de tudo. Se você não sabe a verdade você se
agarra ao sentimento. Quando você estava pensando que o homem que o havia
ofendido era normal, você poderia tê-lo matado. Mas quando você descobriu a
verdade, que ele está louco, você se sentiu muito melhor. Esse é o conhecimento
da verdade.
Alguém que vê o
Dhamma tem uma experiência semelhante. Quando a cobiça, aversão e delusão
desaparecem, eles desaparecem do mesmo modo. Enquanto não conhecemos essas
coisas pensamos, "O que posso fazer? Eu tenho tanto desejo e
aversão". Esse não é o claro conhecimento. É exatamente o mesmo quando
pensávamos que o homem louco era equilibrado. Quando finalmente vimos que ele
estava louco todo o tempo, nos aliviamos da aflição. Ninguém poderia
mostrar-lhes isso. Somente quando a mente vê por si mesma é possível arrancar
pela raiz e abandonar o apego.
É o mesmo que
ocorre com este corpo que chamamos de sankharas.
Embora o Buda já tenha explicado que não se trata de algo sólido ou real como
tal, nós ainda não aceitamos isso, teimosamente nos agarramos a ele. Se o corpo
pudesse falar, ele nos diria o tempo todo, "Você não é o meu dono,
sabia?" Na verdade ele nos está dizendo isso o tempo todo, mas é a
linguagem do Dhamma, por isso somos incapazes de entendê-lo. Por exemplo, os
órgãos dos sentidos: olho, ouvido, nariz, língua e corpo estão mudando todo o
tempo, mas eu nunca os vi pedir permissão uma vez que seja! Tal como quando
temos dor de cabeça ou dor de estômago - o corpo nunca pede primeiro permissão,
ele simplesmente faz o que quer, seguindo o seu curso natural. Isso mostra que
o corpo não permite que ninguém seja o seu dono, ele não tem dono. O Buda o
descreveu como algo vazio.
Nós não
entendemos o Dhamma e por isso não entendemos esses sankharas; nós assumimos que eles são nós mesmos, que nos pertencem
ou pertencem a outros. Isso faz surgir o apego. Quando o apego surge, "vir
a ser" vem em seguida. Uma vez que o devir surge, então existe o
nascimento. Uma vez que existe o nascimento, então o envelhecimento,
enfermidade, morte…toda a massa de sofrimento surge. Isto é Paticcasamuppada. [9] Nós dizemos que a ignorância faz surgir as atividades volitivas,
elas dão origem à consciência e assim por diante. Todas essas coisas são
simplesmente eventos que se passam na mente. Quando entramos em contato com
alguma coisa da qual não gostamos, se não temos atenção plena, a ignorância
estará ali. O sofrimento surge imediatamente. Mas a mente passa por essas
mudanças tão rapidamente que não nos é
possível acompanhá-la. É o mesmo quando você cai de uma árvore. Antes que você
se dê conta - "Pum!" - você caiu no solo. Na verdade você passou por
muitos galhos e ramos pelo caminho mas você não foi capaz de contá-los, você
não foi capaz de se lembrar deles à medida que passava por eles. Você somente
caiu e depois "Pum!"
Com o Paticcasamuppada é o mesmo. Se o
dividirmos da forma como está nas escrituras, diremos que a ignorância dá
origem às atividades volitivas, as atividades volitivas dão origem à
consciência, a consciência dá origem à mentalidade-materialidade, a
mentalidade-materialidade dá origem aos seis meios dos sentidos, os seis meios
dos sentidos dão origem ao contato sensual, o contato dá origem à sensação, a
sensação dá origem ao desejo, o desejo dá origem ao apego, o apego dá origem ao
ser/existir, o ser/existir dá origem ao nascimento, o nascimento dá origem ao
envelhecimento, enfermidade, morte e todas as formas de sofrimento. Mas na verdade,
quando você entra em contato com alguma coisa da qual você não gosta, o
sofrimento é imediato! Essa sensação de sofrimento é na verdade o resultado de
toda a cadeia do Paticcasamuppada. É
por isso que o Buda exortava os seus discípulos a investigar e conhecer as suas
mentes inteiramente.
Quando as pessoas
nascem no mundo elas não possuem nomes - uma vez que nascem, lhes damos nomes.
Isso é uma convenção. Damos nomes para as pessoas por conveniência, para ter
como chamar um ao outro. Com as escrituras ocorre o mesmo. Separamos tudo com
rótulos para que o estudo da realidade seja facilitado. Da mesma forma, todas
as coisas são simplesmente sankharas.
A sua natureza é que são coisas originadas de condições. O Buda disse que elas
são impermanentes, insatisfatórias e não-eu. Elas são instáveis. Nós realmente
não entendemos isso, nossa compreensão é falha e por isso temos o entendimento
incorreto. Esse entendimento incorreto é de que os sankharas somos nós mesmos, que nós somos os sankharas, ou de que a felicidade ou infelicidade somos nós mesmos,
nós somos a felicidade e a infelicidade. Ver dessa forma não é conhecer plena e
claramente a verdadeira natureza das coisas. A verdade é que não podemos forçar
todas essas coisas a seguir os nossos desejos, elas seguem o caminho da
natureza.
Uma simples
comparação: suponha que você vá e se sente no meio de uma autopista com carros
e caminhões vindo na sua direção. Você não pode ficar com raiva dos carros e
gritar, "Não dirijam por aqui! Não dirijam por aqui!" É uma autopista,
você não pode dizer-lhes isso! Então o que você pode fazer? Você sai da
autopista! A autopista é o lugar dos carros, se você não quiser que os carros
estejam ali, você irá sofrer.
É o mesmo com os sankharas. Nós dizemos que eles nos
perturbam, tal como quando sentamos em meditação e ouvimos um som. Nós
pensamos, "Ah, esse som está me aborrecendo". Se pensarmos que o som está nos perturbando
então conseqüentemente sofreremos. Se investigarmos um pouco mais, veremos que
somos nós que saímos e perturbamos o som! O som é simplesmente som. Se o
entendermos dessa forma então não há nada mais e nós o deixamos em paz. Veremos
que o som é uma coisa, nós somos outra. Aquele que deduz que o som surge para
perturbá-lo é alguém que não consegue ver a si mesmo. Ele realmente não
consegue! Uma vez que você consiga ver a si mesmo, então você estará tranqüilo.
O som é somente um som, porque você deveria agarrá-lo? Você verá que na verdade
foi você quem saiu e perturbou o som. Esse é o genuíno conhecimento da verdade.
Você vê os dois lados, assim você terá paz. Se você enxergar somente um lado,
existirá o sofrimento. Uma vez que você consiga ver ambos lados, você estará
seguindo o Caminho do Meio. Essa é a prática mental correta. Isso é o que
chamamos de "acertar a nossa compreensão".
Da mesma forma, a
natureza de todos sankharas é a
impermanência e a morte, porém nós queremos agarrá-los, nós os carregamos
conosco e os desejamos. Queremos que eles sejam verdadeiros. Queremos encontrar
a verdade nessas coisas que não são verdadeiras! Sempre que alguém pense assim
e se apegue aos sankharas como sendo
ele mesmo, ele sofrerá. O Buda queria que o levássemos em conta dessa forma.
A prática do
Dhamma não depende de ser um monge, um noviço ou um leigo; ela depende de
acertarmos a nossa compreensão. Se o nosso entendimento é correto, alcançaremos
a paz. Quer você seja ordenado ou não, é a mesma coisa, todas as pessoas têm a
oportunidade de praticar o Dhamma, de contemplá-lo. Nós todos contemplamos a
mesma coisa. Se você alcança a paz, é a mesma paz para todos; é o mesmo
Caminho, com os mesmos métodos.
Portanto, o Buda
não discriminava entre leigos e monges, ele ensinou todas as pessoas a praticar
para conhecer a verdade dos sankharas.
Quando conhecemos essa verdade, nos soltamos deles. Se conhecermos a verdade
não haverá mais vir a ser ou nascimento. Como não haverá mais nascimento? Não
há mais como ocorrer o nascimento porque conhecemos plenamente a verdade dos sankharas. Se conhecermos a verdade
plenamente, então haverá paz. Ter ou não ter, é tudo a mesma coisa. Ganho ou
perda é o mesmo. O Buda nos ensinou a entender isso. Isso é paz; paz da
felicidade, infelicidade, alegria e tristeza.
Precisamos ver
que não há razão para nascer. Nascer de que forma? Nascer na felicidade: Quando
conseguimos algo que gostamos ficamos felizes por isso. Se não existe apego a
essa felicidade não existe nascimento; se existe apego, a isso se chama
"nascimento". Portanto se obtemos algo, não nascemos (na felicidade).
Se perdemos, não nascemos (na tristeza). Isto é o não nascido e o imortal. O
nascimento e a morte, ambos, são encontrados no apego e no amor aos sankharas.
Assim o Buda
disse: "O nascimento foi destruido, a vida santa foi vivida, o que deveria
ser feito foi feito, não há mais vir a ser a nenhum estado". Aí está! Ele
conhecia o não nascido e o imortal! Isso é o que o Buda constantemente exortava
os seus discípulos a conhecer. Essa é a prática correta. Se você não
alcançá-la, não irá alcançar o Caminho do Meio e então não irá transcender o
sofrimento.
7. Veja Introdução. [Retorna]
8. No idioma Tailandês a palavra "sungkahn," derivada da palavra em Pali
sankhara (o nome dado a todos
fenômenos condicionados), é um termo comumente usado para o corpo. O Venerável
Ajaan emprega a palavra com ambos sentidos. [Retorna]
9. Paticcasamuppada -- A Cadeia da
Origem Dependente, uma das doutrinas centrais da filosofia Budista. [Retorna]